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“Eu treinei a vida inteira para não sentir nada.”

Foi o que um executivo me disse em sessão, sem perceber o peso da própria frase.

Algumas pessoas crescem aprendendo que sentir é perigoso. Então fazem da mente um abrigo e uma estratégia de sobrevivência.

Por muito tempo, o mundo corporativo reforçou esse padrão. A racionalidade era sinônimo de profissionalismo, enquanto as emoções ficavam do lado de fora. Esperava-se controle, objetividade e produtividade.

Para quem aprendeu cedo que sentir era perigoso, não sentir parecia uma vantagem.

O mundo corporativo, por muito tempo, premiou exatamente esse funcionamento: controle, produtividade e racionalidade acima de tudo.

Mas nenhuma estratégia de sobrevivência é gratuita.

O cérebro pode anestesiar emoções para proteger a vida psíquica, mas não consegue eliminá-las. O que é reprimido não desaparece; apenas muda de endereço.

A conta pode surgir como ansiedade, burnout, vazio, dificuldades nos vínculos ou até no corpo, quando aquilo que não pôde ser vivido passa a ser somatizado.

O sistema emocional não funciona por compartimentos. Não é possível desligar apenas aquilo que dói. Quem tenta anestesiar a dor acaba, inevitavelmente, reduzindo também a capacidade de sentir a vida.

A psique é um organismo integrado. Não escolhemos quais emoções queremos experimentar.

Quando a dor é anestesiada, a alegria perde intensidade. Quando o medo é reprimido, diminuem também a espontaneidade, a criatividade, a capacidade de amar, de construir vínculos e de se deixar afetar pelo mundo.

O mesmo mecanismo que protege do sofrimento também limita o prazer, a vitalidade e a sensação de estar verdadeiramente vivo. Ou seja, toda estratégia que nos protege da dor também pode nos afastar da potência da vida.

A racionalidade deixa de ser uma potência quando se constrói à custa das emoções que nunca puderam ser vividas.

A pessoa entrega resultados, resolve crises, assume responsabilidades e sustenta uma imagem de competência. Mas, aos poucos, perde o contato com a própria experiência interna e isso transborda para as relações, para a saúde mental e para a saúde fisica.

O custo raramente aparece no desempenho imediato. Ele surge na dificuldade de sentir, de descansar, de estabelecer vínculos genuínos e de encontrar sentido naquilo que conquistou.

Maturidade emocional não é escolher entre razão e emoção. É desenvolver a capacidade de integrá-las.

Porque a emoção não é o oposto da razão. Ela é informação. Revela necessidades, limites, desejos e sinais que a mente, sozinha, não conseguiu se atentar.

Líderes que aprendem a integrar razão e emoção não apenas tomam melhores decisões. Constroem relações mais saudáveis, sustentam resultados mais consistentes e vivem com mais presença e autenticidade.

A alta performance sustentável não nasce da anestesia emocional. Ela nasce da integração da psique.

Rafaela Lamego

Psicóloga e Mentora de Carreira. Há mais de 20 anos atuando no universo corporativo com mais 10 anos de clínica, integrando desenvolvimento humano, liderança, carreira e ampliação de consciência